Este é um arquivo particular que compartilho para que os leitores possam conhecer melhor seus direitos.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Quase 260 mil crianças trabalham como domésticas no Brasil
Brasília – O Brasil ainda precisa combater o "núcleo
duro" do trabalho infantil no país, que são os casos de exploração de
crianças e adolescentes em situação menos evidente, especialmente em
residências, segundo dados divulgados hoje (8) no relatório Brasil Livre de
Trabalho Infantil, da organização não governamental (ONG) Repórter Brasil.
Estima-se que aproximadamente 258 mil crianças e adolescentes entre 10 e 17
anos trabalham na casa de terceiros no país – das quais 94% são do sexo
feminino. No mundo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) avalia que
15,5 milhões de pessoas com menos de 18 anos exerçam atividades domésticas.
Com a aprovação da Emenda Constitucional 72 no início de
abril, passou a ser proibido o trabalho doméstico insalubre a menores de 18
anos e qualquer tipo de atividade a menores de 16 anos. Ainda assim, não há
instrumentos que viabilizem a fiscalização. De acordo com informações do
relatório, das mais de 7,2 mil ações de fiscalização do Ministério do Trabalho
e Emprego feitas em 2012, apenas nove foram referentes a trabalho infantil
doméstico.
A justificativa para a relativa ausência de ações é a
inviolabilidade do lar, garantida pelo Artigo 5º, Inciso 11, da Constituição. A
lei estabelece que ninguém pode entrar em um domicílio sem o consentimento do
morador, salvo em caso de flagrante delito, desastre, emergência ou por
determinação judicial.
Atualmente, a fiscalização dos casos de trabalho infantil
doméstico é regida pela Instrução Normativa 77, de 2009, do Ministério do
Trabalho, que determina que a ação dos auditores se limita a plantões fiscais e
ações de sensibilização. A partir disso, as denúncias devem ser feitas aos
conselhos tutelares ou à Procuradoria do Ministério Público.
"A inviolabilidade do lar não pode ser mais sagrada do
que o princípio de máxima e prioritária proteção às crianças e aos
adolescentes, estabelecida tanto pela Constituição Federal quanto pelo ECA
[Estatuto da Criança e do Adolescente]. O problema é que, diante de conflitos
entre princípios jurídicos, a tendência do Estado brasileiro tem sido a do
caminho mais fácil: existe a inviolabilidade do lar, então não podemos
fiscalizar", explicou, no relatório, a professora de mestrado em Políticas
Sociais e Cidadania da Universidade Católica de Salvador.
O diretor do Departamento de Fiscalização do Trabalho do
ministério e coordenador da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho
Infantil, Leonardo Soares, informou, no estudo, que é difícil um juiz emitir
autorizações para que fiscais do trabalho entrem em um domicílio – exceto em
casos de busca e apreensão ou crime. Na maioria dos casos, a fiscalização é
negociada entre os auditores e os proprietários.
Concomitantemente, a ONG identificou a resistência cultural
na sociedade brasileira, inclusive por parte de representantes do Poder
Público, no sentido de naturalizar o trabalho infantil, tanto no âmbito do lar
quanto em outros locais – o que dificulta a negociação com os possíveis
empregadores e as denúncias feitas por terceiros. Em 2011, foram registrados mais
de 3,1 mil casos de crianças e adolescentes trabalhando na iniciativa privada
com autorização prévia da Justiça. Entre 2005 e 2010, esses casos superaram 33
mil.
Somada às demais dificuldades impostas pelo tema está o fato
de que o trabalho infantil atual está menos relacionado à exploração e mais a
questões econômicas, como a desigualdade de renda. Segundo o Censo de 2010 do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 40% dos 3,4
milhões crianças entre 10 e 17 anos que exercem algum tipo de atividade no
mercado de trabalho não estão abaixo da linha de pobreza e usam o que recebem
para comprar bens de uso pessoal, como eletroeletrônicos, jogos, celulares,
roupas e calçados.
Ainda hoje, haverá uma audiência pública na Câmara dos
Deputados para a apresentação oficial do relatório e promoção de debates sobre
o tema, com o objetivo de ampliar as discussões sobre a erradicação das piores
formas de trabalho infantil. Está prevista a participação de representantes da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e da OIT.
do site Geledes.org.br
Cura Gay
DEBORA DINIZ - Antropóloga, professora da Universidade de Brasília, pesquisadora da Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero)
Uma leitura rápida não é capaz de decifrar o objeto da controvérsia do Projeto de Decreto Legislativo n.234/2011, recentemente ressuscitado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Há pelo menos duas formas de entendê-lo. A primeira segue a literalidade dos três parágrafos do texto: ao sustar artigos da Resolução no 1/1999 do Conselho Federal de Psicologia, o projeto autoriza tratamentos psicológicos para gays. Seria uma vigilância do Legislativo a atos supostamente abusivos dos conselhos profissionais. Mas é a segunda leitura que descortina o segredo da proposta. Não se trata de um texto sobre liberdade profissional de psicólogos, mas de uma artimanha moral. Em nome do livre exercício profissional, institui-se a cura gay.
Cura gay foi o nome dado às iniciativas para patologizar a homossexualidade, isto é, para descrevê-la como doença. Falsamente se pressupõe que a heterossexualidade seria a única sexualidade saudável, para daí se classificar as outras formas de vivência como anormais. O destino dos desviantes seria a clínica gay. Uns poucos psicólogos solitários sustentam haver tratamento psíquico para a homossexualidade e reclamam ser cerceados em sua liberdade profissional. Ora, não há liberdade profissional para práticas discriminatórias ou charlatanices — o papel dos conselhos profissionais é exatamente este: discernir a boa da má prática profissional. O Conselho Federal de Psicologia não tem dúvidas e decretou que psicólogos não podem se lançar como terapeutas da cura gay. Isso foi há mais de uma década e já 20 anos depois de a Organização Mundial da Saúde ter banido a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças.
O tema da cura gay voltou à pauta nacional no mesmo dia em que a democracia se movimentava nas ruas. Eram milhões de jovens reclamando igualdade — fosse no transporte, na educação ou, simplesmente, na vida. Alheios ao clamor nacional, alguns deputados se reuniram e deram vida à homofobia travestida de democracia. Erra quem imagina que essa é uma disputa sobre liberdade profissional. O projeto não visa garantir o livre exercício profissional de psicólogos convictos de que homossexualidade é doença. Essa é só a peça final de um jogo de obscuridades. O que importa é classificar práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo como patológicas. Ser gay passaria a ser um tipo psicológico desviante. A clínica do desvio sexual se instauraria como uma nova especialidade no Brasil.
O psicólogo da cura gay acredita que há sexualidades abjetas. É um sujeito paralisado pela moral que falsamente supõe ser a heterossexualidade o destino dos corpos. Imagino-o como alguém assustado com a nova ordem social — os gays se casam, têm filhos, param as ruas para reclamar seus direitos. Esse vasto contingente se recusará a procurar a clínica de cura gay. Será difícil um psicólogo conseguir vencer a recusa dos gays em se reconhecerem como patológicos e ainda sobreviver à permanente crítica de colegas de profissão. Mas nem todos os gays saíram do armário, anunciaram-se em suas escolhas ou mesmo são livres para fazê-las. É para esses sujeitos que o projeto de cura gay é uma temeridade.
A cura gay instaura a dúvida injusta de a homossexualidade ser uma doença e, assim sendo, se os indivíduos deveriam se medicar. Ela perturba as famílias ainda inquietas com a sexualidade de filhos adolescentes ao prometer um atalho para a mudança de mentalidades. A cura gay é um esconderijo para os que sofrem com o armário — em vez de romperem a prisão do medo, se lançarão em uma gaiola na qual quem se apresenta como cuidador é um algoz do sexo. Não há cura para a homossexualidade, simplesmente porque não há doença nem perturbação ou perversão a serem tratadas. No entanto, descrevê-la como desvio patológico é perturbar uma ordem inquieta sobre a sexualidade.
Acredito que a resistência à cura gay não virá apenas dos corpos que se declaram como homossexuais, mas de toda a nova rede de relações que reconhece a homossexualidade como vivência legítima dos corpos e dos sexos. Não me espanta saber que havia poucos manifestantes gays na plenária que votou o projeto enquanto o país estava nas ruas. Só não será fácil para os deputados levarem o projeto da cura gay adiante. As ruas ainda se manterão cheias nos próximos dias, mas nossos olhos se abriram para a democracia que se exercita no Congresso Nacional. O grito das ruas anuncia que estamos fartos de injustiças. Se 20 centavos mobilizaram multidões, o que dizer de um projeto que ameaça a igualdade de milhões que movimentam as paradas gays pelo país?
artigo publicado em 22/06/2013 no jornal Correio Braziliense
do site Geledés Instituto da Mulher Negra
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